Viriato

Anotando uma estória velhinha e  banal, o sapo que vai a uma festa no céu, reli a versão do ERA UMA VEZ… de Viriato Corrêa e João do Rio. Essa estória mereceu um estudo de João Ribeiro e ainda há muito que respingar e deduzir no processo de convergência que a constitui.

E fui lendo estória a estória, esquecido do confronto. E passei a outros livros. E comecei a lembrar minha vida no Rio de Janeiro, a estréia da JURITI, com música de Chiquinha Gonzaga, peça em que Procópio Ferreira fazia o Zé Fogueteiro, uma pontinha de movimento. – Zé Fogueteiro quem é teu pai? – Mamãe num sabe…

O conto, histórico, a narrativa movimentada, humana, colorida, sugestiva, cheia de pitoresco, de originalidade, de fixação de interesse, começou com ele. Ninguém antes de Viriato contou uma história com mais limpidez, claridade e precisão rápida. E era apenas uma página. Ninguém imaginou diálogos mais fascinantes nem descreveu cenas mais lógicas. Viriato trouxe a História, grave e serena, ao convívio democrático de todas as inteligências, de todos os raciocínios, de todas as compreensões. Popularizou-a sem banalizá-la.

Revolvia e mastigava uma biblioteca para reunir uma simples página brilhante. Poucos sabiam o trabalho do miniaturista para conseguir aquele milagre de síntese, de graça, de delicadeza tranqüila.

E há o teatrólogo vitorioso. As peças que faziam centenários, com as figuras do sertão vivendo e dominando. E o cronista nítido e sóbrio como uma água-forte, a precisão vocabular incomparável, faiscando de ironia.

No final também descubro que fui à festa no céu escondido na viola mágica desse violeiro verbal que o Maranhão emprestou ao Rio de Janeiro para maior glória brasileira.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 04 de abril de 1949

O exemplo dos Bandar-Log

No Jungle Book, Rudyard Kipling lembra o grande povo dos Bandar-Log, habitantes das árvores, livres e alegres criaturas, devotas do próprio mérito.

Todos os animais da selva têm um chefe, uma ordem, uma lei e uma palavra para identificar-se. Reconhecem nas outras espécies os direitos da fome e o dever da caça.

Os Bandar-Log dispensam tudo. São livres. Não têm tradição porque neles a memória registra apenas o fato imediato. Não admitem pousada certa nem amigos demorados. Livres. Independentes. Soberanos. Sempre estão quase dispostos a eleger um chefe, proclamar suas leis e usos prodígio da deliberação anterior. Para os Bandar-Log não há o bem nem o mal porque não há imagem de confronto nem reminiscências cotejadoras. O que amam agora odeiam depois de vinte minutos. Não há um Bandar-Log que não havia sido genial e medíocre cada dia. O espírito é leve, airado, voluptuoso.

Vivem pulando pelas árvores, elegantes, libertos, sedutores, admiráveis de agilidade, graça, beleza, uns para os outros. Do seu tino cotidiano há um verso assim: – O que os Bandar-Log pensam agora toda a jangla pensará depois!

Vaiam estridentemente todos os animais que constroem seu abrigo e dormem na toca. Atiram sementes e frutos secos em que passa abaixo das árvores onde vivem, espalhando as puleridades dos saltos e o amavio dos gritos.  Não têm casa nem alimento certo. Cantam, continuamente: – Não há nada na selva mais sábio, melhor, mais forte, mais apto e prudente como os Bandar-Log! E todo o bando, no vôo fulminante pelas galharias, aplaude o fervoroso e mútuo elogio.

Mogli viveu algumas horas entre eles. Ouviu-os proclamar, modestamente, as excelências: – Somos grandes! Somos livres! Somos admiráveis! Somos o mais admirável povo da floresta…

Rudyard Kipling disse que nenhum outro animal concorda com esses dogmas dos Bandar-Log, lépidos, sonoros, espirituosos, realizadores de esplêndida vadiagem deliciosa. Vivem nas matas da Índia.  Deixaram exemplo na Jungle Book. Há quem os imite no canto e na devoção extasiada e pessoal?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 17 de março de 1949

O cortejo universitário de São Francisco da Califórnia

Em princípios de novembro, a cidade de São Francisco festejou o aniversário do descobrimento da Baía do mesmo nome, há cento e setenta e nove anos.

Muita gente está convencida de que o americano do norte é um matador das suas tradições, inimigo da sua história, vândalo esfomeado, espatifando quanto possa lembrar velhice e tempo passado.

Quem viveu algum tempo por aquele mundo diz justamente o contrário. Só se muda, só se transforma, só se modifica nos Estados Unidos o que deve ser mudado, transformado, modificado. Tudo quanto estiver relacionado com um episódio histórico está sagrado para sempre. Ninguém mexe. Não há atrevimento capaz de por o dedo em cima. Vezes constroem um edifício imenso para cobrir uma casinha em que nasceu um poeta grande ou vive um dos presidentes maiores da federação. Há nos Estados Unidos ruas com nomes de duzentos e mais anos.

Em São Francisco da Califórnia, cada novembro, há uma festa oficial e popular, comemorando o descobrimento da baía diante da cidade imensa. Não se trata de uma comemoração burocrática e sonolenta como a fundação do Rio de Janeiro dentro da Prefeitura do Distrito Federal. Em São Francisco é um dia cheio de evocações históricas, com representações que trazem ao espírito do norte-americano de hoje o trabalho do norte-americano de ontem e do anteontem.

Um desfile que custa muito dinheiro é mantido orgulhosamente pela Prefeitura e pelo povo como uma exibição visível da grandeza humana e do esforço do homem de São Francisco através dos séculos.

O desfile de novembro de 1948 constou em 218 unidades em marcha, num total de sessenta e cinco mil pessoas, com oitenta e nove bandas de música e trinta e nove bandas de clarins. Naturalmente, as “girls” não faltaram com a plástica ostensivamente verificável em sua beleza. Oitenta e duas “girls” vestidas de tambor-mor evoluíam, fazendo piruetas com os bastões-de-ritmo, ornamentados. Centenas de cavaleiros, vestidos rigorosamente como na época do descobrimento, isto é, em 1769, desfilaram. Uma caravela portuguesa passou também, em cima de um carro alegórico. Podia-se dizer que era a própria História revivida aos olhos de 1948.

Este é um Estados Unidos pouco citado, mas muito digno de exemplo na memória de quem admira a borracha de mastigar e Hollywood.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 09 de março de 1949

Brasileirismos… de Portugal

Andei rodando Portugal de Valença de Minho até o Algarve. Rodando com os olhos e ouvidos alertados. Ia para estudar e não para passear, como turista irresponsável e rico. Sabia das dificuldades vencidas e da remota possibilidade de um retorno à Europa. Era obrigado a ver e ouvir como devia. Não me arrependo dos cuidados que punha na observação menor.

Conversando com o povo nas feiras, arraiadas, festadas, trabalhos rurais, ia ouvindo vocábulos que pensava originários do Brasil ou propriedade do brasileiro do interior. Palavras e frases, imagens descritivas ou comparativas surgiam com surpreendente igualdade às do meu país. Igualdade e, muitíssimas vezes, identidade.

Dizemos “Ar do Dia” como crepúsculo, fim-do-dia. Nos livros regionais é registrado como um tipismo inquestionável. Em Alandroal, em Alentejo, canta-se:
- Em se pondo o Ar do Dia
- Fica na escuridão!

O Sr. J. A. Pombinho Júnior publicou “Cantigas Populares Alentejanas” num volume que fixa muito bem esses brasileirismos… de Portugal.

Diz-se “Bandoleiro” por volúvel, “Confiado” por atrevido, “Desenfeliz” por infeliz, “Função” por baile, festa, “Fundura” por profundidade, “Paleio” por conversa fútil, “Home” por homem, “Céu-da-boca” por palatino, estão nesses versos:

Tu és clara como leite
E o leito também se come,
E tens dois olhos na cara
Que enganaram a qualquer homem
Qual é que será o tolo
Que faz caso de ti, ó louca.
Tu tens falta de miolo
Por cima do céu-da-boca.

Extremoz, a nossa povoação no Município de Ceará-Mirim, nasceu de um topônimo alentejano, a cidade de Extremoz, grande, cercada de muros, cheia de vida e de cor, onde fiquei um dia inteiro. Extremoz exporta uma cerâmica deliciosa, de onde faz parte a famosa Bilha-dos-Namorados. Uma pronúncia muito nossa é dizer “Estremôris”. Julgava eu deturpação prosodial possivelmente ligada a um processo pessoal de deformação verbal. É pronúncia da região portuguesa. Nós apenas a repetimos:

Se quisesse amar bonecos
Mandavo’vir de Stremôris Vergonha de minha cara
Se eu contigo amôris
Se eu contigo tinha amôris
Se eu era o tê namorado;
Mandava’os vir de Stremôres,
Mandava’os vir do Chiado!
“Fachada” por visão de conjunto, vista, efeito. “De-continui” por continuamente:
A fedor de carapêto
Só longe Fachada faz
Se não me amas com jêto,
A força não és capaz!
A tua cara é uma rosa
Foi feita d’alfobre fino,
As tuas feições formosas
Cá me alembram de-continui

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 04 de março de 1949

Uma grande vitória da arte popular

Pouco a pouco, lentamente, a Arte Popular está conquistando algumas polegadas de simpatia nas residências confortáveis e ricas da cidade.

A cerâmica cabocla está merecendo que mãos socialmente elevadas e sabiamente desdenhosas ergam das esteiras amarelas das feiras as louças humildes de Sant’Antônio dos Barreiros, de Coqueiros, da Gangorra e elevem esse documentário artístico tradicional à altura da classe decorativa no bom gosto doméstico.

A nossa sociedade, os nossos amáveis granfas e granfinos ainda não passaram a fase inicial da prataria tripeira de gosto discutível e teimosamente rococó. Ainda não chegaram à cerâmica. Há exemplos, sei eu, mas esses exemplos são exceções. Certa e esperadamente quando a cerâmica aparecer, será através da louça ornamental portuguesa, Alcobaça, Sacavem, Vista Alegre, os pratos azulados, orlados de ouro, esmalte, prata e verde lodo.

Não vou discutir nem condenar essa louça linda. Vou apenas atrever-me a pedir um canto no “hall” das nossas casas, nas salas de estar, nos escritórios, para a louça bravia, rude e sugestiva que saem das mãos incomparáveis do nosso povo oleiro. Não é preciso dispor uma coleção de pratos, copos, terrinas, conchas e vasilhas encurvadas, com seus desenhos brancos, ingênuos e deliciosos, com o forte timbre rubro dourado do tauá brilhante.

Basta uma ou outra peça, discretamente posta, para indicar ao visitante, ao olhar displicente da visita, a coragem do dono da casa ou da sua dona, coragem de ter fisionomia artística, coragem de saber escolher, coragem de não cumprir imposições macaqueantes, coragem de livremente dispor da sua sala e do arranjo dos objetos artísticos.

Alguns pratos, de barro escuro, brilhas de perfil grego, com ornamentação de cores claras e lavadas, azul, vermelho, verde, uns dois a três galinhos brancos de Santo Antônio, espalhados numa prateleira escura, na sobriedade de um escritório, entre porcelanas de Saxe, de Limoges ou Sevres, gritam uma nota pessoal de alto gosto moderno, uma rebeldia de irradiante personalidade, articulando exemplos e seduzindo companheirismos. Onde encontrar esses objetos que iniciarão a reação do bom senso e uma vitória da Arte Popular?

Visitem a Feira do Alecrim nos domingos e a Feira das Rocas na segunda-feira e os Mercados Públicos. Nada mais.

O resto é apenas a coragem de ter bom gosto…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 25 de fevereiro de 1949

O uso e o abuso da admiração

Nada mais difícil que destituir a autoridade de um livro superficial que teve a fortuna de ser adotado pelo público. A frase é de Renan.

Queixava-se Renan de desigualdade de juízo leitor entre valores distanciados vertiginosamente na escola do mérito. O acadêmico Joseph Conde escrevera uma História dos Árabes na Espanha, fervilhante de enganos, de erros, de omissões, de obscuridades. O historiador não lia o árabe e a documentação exaustiva passou ao largo do seu exame. Mistura, baralha, contradiz-se, perde-se. Mas o livro vendeu-se bem e o homem ganhou a fama e deitou-se nela.

Reinhart Dozy, professor da Universidade de Lyede, era justamente o contrário. Raro expositor, conhecendo o árabe, estudando arquivos inéditos, examinando demorada e admiravelmente o assunto.

Publicando seu livro, irritava-o que fosse comparado, citado, emparelhado com o velho Joseph Conde, o historiador dos enganos e o divulgador dos erros. Quem lia Dozy julgava-se na autoridade obrigacional de citar Conde.

Hoje quase 100 anos depois (o volume do Prof. Dozy é de 1849) ninguém sabe se realmente existiu Joseph Conde, mas Reinhart Dozy é atual e contemporâneo. Ninguém, estudando o assunto, o dispensa.

Mas para esse estado foi preciso que quatro gerações desaparecessem e dois historiadores, o grande e o pequeno, passassem desta para a vida eterna.

Enquanto foram vivos e atuais não houve justiça mesmo para os espíritos mais ágeis e livres.

Não vou dizer ter sido, como Dozy, vítima da admiração maquinal que mete uma coroa no pescoço dum gênio e esquece de verificar se continua viva ou murcha. Lembro-me que em Atenas, um século antes que Jesus Cristo nascesse em Belém, um grego especializou-se por imitar maravilhosamente o guincho do bacorinho.

Houve um concurso entre os imitadores. O famoso herói foi aclamadíssimo. O último colocado da lista, quase expulso, vaiado várias vezes, chegou-se a mesa dos juízes julgadores, saudou-os, abriu as pregas soltas da grande túnica e retirou de dentro um bacorinho vivo.

Os gregos de Atenas tinham vaiado o original, consagrando a cópia, canonizando o plágio.

Vez por outra o Sr. Charles Chaplin é desclassificado num concurso de imitadores de Carlito.

Uso e abuso da admiração.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 25 de fevereiro de 1949

Apólogo que Esopo esqueceu

Pedro Perna Santa tem mais de quarenta anos de pescador. Já possui bisnetos e seu casebre no morro de Areia Preta não tem telhas. Anda, como me diz, beliscando pelas praias, aqui e ali, com vida incerta e ganho problemático. Vez por outra encalha na minha janela para prosear. Conta casos do mar, assombros e encantos que são os motivos normais de quem vive balançando nas ondas sagradas do oceano, povoado de mistérios. Perna Santa hoje conta um “caso velho”, como ele classifica. É uma fábula, apólogo, digo, de Esopo e de todos os isopetes clássicos.

Era uma vez um compadre rico que tinha centos de carneiros gordos e bonitos. Precisando viajar, chamou o compadre pobre e entregou o rebanho, recomendando que não vendesse, não desse, não trocasse carneiro algum. Foi-se embora e o compadre pobre ficou com o rebanho, comendo carne de carneiro lardeado de gordura. Toda a gente lhe invejava a sorte. Um dia o Reumatismo quis tomar um carneiro e veio bater à porta do pobre.

- Quero comer um carneiro desses…
- Não vendo, não dou, nem troco…
- Eu sou o Reumatismo! Se não me der um, atacarei!
- Ataque quando quiser…

Não deu o carneiro. O Reumatismo atacou o pobre que se defendeu usando os remédios dos cipós do mato. Dias depois, apareceu na casa do pobre uma mulher.

- Quero comer um carneiro desses…
- Não dou, não vendo, nem troco…
- Eu sou a Febre Amarela! Se não me der um, atacarei!
- Ataque quando quiser…

A Febre Amarela atacou e o pobre defendeu-se bebendo garrafadas amargas. Numa tarde bateu uma velha alta e sisuda. Mesma troca de palavras.

- Eu sou a morte! Se não tiver um carneiro desses, atacarei!…

O pobre ficou com medo. Ofereceu o carneiro e carregou-o aos ombros, acompanhando-a. A Morte andou, andou, até sua casa, toda branquinha, num alto da serra. O pobre entrou, deixou o carneiro a um canto e a morte foi mostrar sua vivenda. Salas e salas cheias de velas acesas, de todos os tamanhos, clareando.

- Que são essas velas?
- São as vidas dos homens!
- Qual é a minha?
- Esta grande aqui!
- E a do meu compadre rico?
- Esse toquinho ali!

O pobre, apiedado, propôs trocar sua vida longa pela vida breve do compadre. A Morte suspirou:

- Não posso fazer a troca! Só quem pode é Deus…

- E a senhora não mata quem quer?
- Não. Eu só mato a quem Deus permite e manda…
- Ah! É assim? Não tem os poderes? Então, tenha paciência, não come o meu carneiro!

E voltou para casa com o carneiro nos ombros…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 17 de janeiro de 1949

Que pena ser só ladrão

João do Rio escreveu uma peça em um ato, Que Pena Ser Só Ladrão, que assisti, há uns vinte anos, no Teatro Republicano, encenada por uma companhia portuguesa, Santanela-Aramante.

Estou citando de memória e os nomes podem ser bem diversos, mas fio estar no rumo certo.

Em Siracusa, perto de New York, um ladrão noturno assaltou um dos maiores armazéns da cidade e carregou muitos e muitos brinquedos. Esses brinquedos eram brinquedos de pobre, os mais baratos, os mais acessíveis de todos. Basta dizer que o roubo orçou aí por uns seis dólares, menos de cento e vinte cruzeiros!…

A polícia pela manhã pôs-se em atividade, mas não descobriu o ladrão.

Os jornais divulgaram o roubo, arrombamento, etc., e os humildes brinquedos foram chegando, um a um, às mãos dos proprietários.

O ladrão distribuíra-os entre as crianças pobres do bairro, as crianças sem brinquedo e que teriam ou terão uma Noite de Natal sem carvão, sem castanhas e sem uma triste bonequinha de matéria plástica.

Os pais dessas crianças, sabendo a origem das ofertas encontradas misteriosamente, foram enviando os brinquedos, arrancados às mãos trêmulas dos filhos, já deslumbrados com os presentes que julgavam mandados por Papai Noel. O armazém recuperou o perdido. O ladrão não pôde ser detido. Saberá, pelos jornais e rádios, que o seu ato foi inútil.

As crianças continuaram sem brinquedos. E a polícia procura o doador que arrombou o armazém para ser um Papai Noel sem romeira de veludo escarlate, sem gorro de arminho, sem barba de algodão.

Certo é que esse ladrão de Siracusa é um ladrão diverso. Não vou pensar no raciocínio que ele fez olhando as toneladas de brinquedos e os milhares de crianças sem eles. E calculando quanto custaria uma ceia de Natal nos hotéis de New York, saboreada pelos filantrópicos de fotografias nas revistas e das senhoras beneméritas com os dedos encaroçados de brilhantes, com agasalhos de zebelinha e de marta prateada, quase o custo de um arranha-céu.

Eu, para que negar? Acredito no Direito Natural. Acredito numa porção de sentimentos fora da moda e da percepção moderna.

Que pena só ser ladrão esse arrombador noturno dum armazém em Siracusa!

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 19 de fevereiro de 1949

O conforto é estímulo intelectual ?

Durante uns dias faltou a luz elétrica em Madrid e foi motivo para um interessante artigo na “A.B.C.” (28-XI-1948). Passa-se em revista a produção intelectual antes e depois da luz elétrica e não há vantagem para esta. Certamente não há também o fator tempo apreciável. A iluminação elétrica é de 1841 e o homem trabalha há doze mil anos…

O que foi feito, nesses últimos cinco mil anos, é constante patrimônio insuperável para o futuro. Não é possível escrever, esculpir-se, pintar-se melhor do que foi feito. Nem mesmo próximo ao nível podemos apontar os nossos orgulhosos gênios de 1841 hoje como os criadores do passado. Em nenhum domínio cultural houve modificação sensível dentro das relações estabelecidas pelos antigos.

Pode haver frase mais ou menos irônica, mas a verificação é acabrunhada. Os poetas do primeiro século não foram superados. Nem os historiadores, como Tácito, Tito Lívio, Xenofonte, Tucidides. Negará quem desconhecer os citados. Mas a estória é outra. Perguntaria, por minha vez, se o conforto material é um estímulo. Cercando-se das comodidades modernas e lógicas, garantir-se-á uma melhoria na produção mental?

A lista dos gênios esfomeados, cortados de frio, sem pouso, escrevendo na prisão, compondo debaixo de ameaças febris, errantes incompreendidos, perseguidos, é muitíssimo maior que a dos homens que tiveram uma atmosfera de compreensão e de estímulo.

Os grandes livros, os livros decisivos, do século XVII para os nossos dias, foram publicados com dificuldades enormes, recusados pelos editores inteligentes, ridicularizados pela crítica oficial, negados pelas glórias do tempo. Uns noventa por cento dos gênios indiscutíveis foram vítimas dos seus contemporâneos. Morreram de fome, suicidaram-se, foram exilados, vaiados, vilipendiados, cobertos pela miséria absoluta da ignorância vitoriosa e do favoritismo triunfante. Não é preciso citar nomes.

Por um Pope, um Byron, um Tennyson, um Ruskin, respondem as multidões superiores dos Sócrates, Platão, Shakespeare, Cervantes, Camões, Pascal, Newton, Galileu, Aristófanes, Demóstenes, centos, centos… E os músicos? Beethoven, Schumann, Schubert, Chopin, não respondem pela medíocre (??) de Brahms, Wagner, Listz ou Debussy?

Será que o gênio, como canários de raça, só canta com fome?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 21 de fevereiro de 1949

Valorizemos a arte tradicional e popular

Todos esses objetos de barro tosco que vemos nas feiras e nos mercados públicos da cidade são documentos do gosto coletivo e guardam, no tempo, os elementos típicos de cada fisionomia nacional. Não devemos julgá-los inferiores nem grosseiros, mas diversos de outras artes e de outros gostos. As formas desses vasos, aguidares, jarras, copos, tigelas, conchas, potes, na escala dos tamanhos, são denúncias interessantíssimas, materiais preciosos para um estudo, vagaroso e nobre, nos domínios da etnografia.

Gostaria de ter um jarrão do Egito? Desejava possuir verdadeiramente um jarrão com a legitimidade das linhas egípcias, conservando a estrutura milenar? Quer mesmo?

E a que época esse jarrão deve pertencer pelo estilo e recordar pela forma? O Egito clássico? Dos tempos em que as pirâmides foram erguidas?

Pois então vá a feira do Alecrim ou das Rocas e compre uma jarra, uma jarra entre dezenas de jarra que lá estão. A nossa jarra popular, banal, modesta, comum, plebéia, jarra que nunca mereceu elogios, versos ou louvores, é autenticamente uma constante etnográfica do modelo egípcio, conservando, ali no Alecrim ou no terreiro das Rocas, as linhas fiéis a uns cinco mil anos!

Se duvidar deselegantemente do que lhe afirmo abra a Enciclopédia Britânica, na secção egípcia, e encontrará a silhueta inconfundível da nossa jarra, idêntica, irmã, gêmea pura, como vivendo e sendo usual há cinqüenta séculos…

Não é preciso mais nada para documentar como o povo sabe conservar, conservar fabricando, manipulando, distribuindo, vivendo, os objetos de seu uso milenar.

Nem um poeta, um historiador, um guerreiro, faraó imponente recordamos facilmente dessa época tão recuada.

Nem mesmo é possível indicar-se um deus egípcio porque eles tiveram vida e época para o culto. Nasceram, dominaram e morreram. Não podemos dizer se Isís ou Osíris, Tot ou Anúbis eram populares há cinco mil anos.

A civilização era bem diversa da que conhecemos. A Grécia vivia a fase mítica. A antiguidade clássica envolvia-se no confuso nevoeiro dos mitos. A História, Luz de Verdade, tateia, indecisa, estendendo a mão verificadora ao encontro da Arqueologia. Um objeto deste tempo, com o mesmo uso, cor e forma, tamanho e aspecto, atravessou os cinqüenta séculos e está esperando tua visita, leitor importante, numa feira semanal no Nordeste do Brasil…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 29 de dezembro de 1948

Ingleses no Brasil

O magnífico estudo de Gilberto Freyre, Ingleses no Brasil (Livraria José Olympio Editora), fixa nas linhas gerais o que se diria a história do trabalho inglês no Brasil. Lidou os dois horizontes. Não houve outra influência mais visível no povo brasileiro, exceto naturalmente o colonizador português, que o “mister” vermelho, apressado, estirando os trilhos das estradas de ferro, comandando os primeiros paquetes regulares que o Tratado de Fevereiro de 1810 regulara, vendendo os tecidos fortes, o chá da Índia, o “bitter”, habituando-nos com o álcool matinal, quebra-jejum, mata-bicho, primeira bicada. Certo, o Folk Lore brasileiro conservou a figura do inglês negociante, marinheiro, construtor de ferrovias, na sua poesia anônima e poderosa de vitalidade. As “estórias” mais antigas lembram o inglês no mar. Não traficando, mas combatendo. Não havia a idéia do navio do mar que não fosse armado de canhões, roncando batalha.

Eu entre de mar a dentro
Prá brigá com os inguilês…
Comi bala envenenada
Cuspi fogo sete mês…

Depois dos tratados com D. João Nosso Senhor no Rio de Janeiro, com o Juiz Conservador, o cônsul, as concessões, o inguilês aparece sem as balas envenenadas, mas batendo as “sulipas” das estradas de ferro. É, para o cantor, a característica, o elemento essencial que o impressionou. Respondendo Manuel Serrador a Josué Romano, nas preliminares de um desafio, cantou esse versinho típico, que reuni no Vaqueiros e Cantadores (Livraria Globo Editora, 162):

E eu andava atrás de ti,
Que só guaxinim por cana,
Ou raposa por galinha,
Ou macaco por banana,
Inglês por linha de ferro
Ou preá por gitirana…

Num famoso debate de Preto Limão com Bernardo Nogueira (Vaqueiros e Cantadores, 179) na menção de uma prensa inglesa, tornado processo de suplício para o adversário na cantoria:

Eu já tenho um moinho de quebrar osso,
Uma prensa inguilesa preparada, etc.
Subtendendo-se a excelência da máquina.

Nós temos nossa fauna toda batizada em português, e nas línguas indígenas (especialmente tupi e cariri) e negras, bantos e menos sudaneses. Há um animal com nome dado pelo inglês construtor de estradas de ferro. É o jumento chamar-se popularmente jegue.

Muito raro é essa influência no domínio zoológico. Nome de animal é sempre uma propriedade nacional. O inglês diz “Ass” referindo-se ao jumento. Uma alavanca, espeto, elevador de carro, etc., chamam “Jack”, isto é, instrumento de trabalho. Humoristicamente denominaram o jumento de “Jack-Ass”, jegue-esse, e a crisma passou docemente ao jegue, com todos os efeitos da sinonímia.

O ensaio de Gilberto Freyre, além da lição clara e ágil de sempre, sugeriu-me esse pormenor que é convergência da tese justa por ele exposta e defendida.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 15 de janeiro de 1949

Aprendendo a ver

Aprendemos a falar, mas vemos espontaneamente. Ensinam a linguagem, colocar os pronomes, evitar solecismos, musicalizar a dicção pelo equilíbrio prosodial. Mas ninguém ensina a ver, ver como deve ser vista uma paisagem, um objeto de arte, um cortejo, uma profissão, uma mostra artística. Certamente aqui não está sendo citada documentação erudita. Não há necessidade de aula para cada motivo visual.

O que carecemos é uma educação sumária, mas precisa, dirigindo o olhar para o essencial, o expressivo, o real nos temas examinados visualmente. Ver é possivelmente o processo inicial de sabedoria. Há quem viva cem anos e não saiba ver senão num determinado ângulo, consciente ou inconscientemente. Os sexuais só podem ver uma mulher despindo-a mentalmente. Os chamados homens-práticos olham pelo rendimento material possível. Numa paisagem florestal deduzem o preço da lenha ou da madeira aproveitável em tábuas, pranchas e vigas. Num rio só podem enxergar a força motriz ou pescado. A visão de um conjunto de fábricas é para muitos a idéia única do progresso humano.

Há quem diga: – Que vale Leonardo da Vinci comparado com Henry Ford? Um pintor mataria o atrevido autor de tal frase.  A verdade é que Da Vinci e Ford são valores que não se excluem, mas não haverá possibilidade de vitória de um sobre outro. Os benefícios espirituais espalhados pela obra do grande Leonardo são incalculáveis e imprevisíveis. O mesmo, noutro plano, dir-se-á do primeiro Ford. Pedagogicamente o maior inimigo da educação visual é o processo declamatório escolar, a moléstia, a doença, o vírus da memorialização forçada e total. Estudar História ou Geografia decorando a página do livro, palavra por palavra, servil, humilde, apagadamente, é dos crimes mais violentos e brutos contra uma inteligência infantil. Nada perdoará um professor ou uma professora displicente nesse ponto de recepção auditiva.

Decorando, a criança coloca a visão fixada pelo livro sobre sua inteligência infantil. Gruda o cartaz cobrindo o desenho de sua percepção individual.

Atrasa, evidentemente, a maneira pessoal de ver porque cria a falsa sensação. Para ensinar a ver começar-se-á por ensinar a conversar e descrever. O vocabulário pronto é a caixa de tintas ou a placa sensível da Kodak para impressionar a inteligência com a visão exterior da beleza.

Falta explicar a Beleza. Mas essa pergunta até os cegos respondem.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de janeiro de 1949