Anotando uma estória velhinha e banal, o sapo que vai a uma festa no céu, reli a versão do ERA UMA VEZ… de Viriato Corrêa e João do Rio. Essa estória mereceu um estudo de João Ribeiro e ainda há muito que respingar e deduzir no processo de convergência que a constitui.
E fui lendo estória a estória, esquecido do confronto. E passei a outros livros. E comecei a lembrar minha vida no Rio de Janeiro, a estréia da JURITI, com música de Chiquinha Gonzaga, peça em que Procópio Ferreira fazia o Zé Fogueteiro, uma pontinha de movimento. – Zé Fogueteiro quem é teu pai? – Mamãe num sabe…
O conto, histórico, a narrativa movimentada, humana, colorida, sugestiva, cheia de pitoresco, de originalidade, de fixação de interesse, começou com ele. Ninguém antes de Viriato contou uma história com mais limpidez, claridade e precisão rápida. E era apenas uma página. Ninguém imaginou diálogos mais fascinantes nem descreveu cenas mais lógicas. Viriato trouxe a História, grave e serena, ao convívio democrático de todas as inteligências, de todos os raciocínios, de todas as compreensões. Popularizou-a sem banalizá-la.
Revolvia e mastigava uma biblioteca para reunir uma simples página brilhante. Poucos sabiam o trabalho do miniaturista para conseguir aquele milagre de síntese, de graça, de delicadeza tranqüila.
E há o teatrólogo vitorioso. As peças que faziam centenários, com as figuras do sertão vivendo e dominando. E o cronista nítido e sóbrio como uma água-forte, a precisão vocabular incomparável, faiscando de ironia.
No final também descubro que fui à festa no céu escondido na viola mágica desse violeiro verbal que o Maranhão emprestou ao Rio de Janeiro para maior glória brasileira.
Diário de Natal, 04 de abril de 1949