Apólogo que Esopo esqueceu

Pedro Perna Santa tem mais de quarenta anos de pescador. Já possui bisnetos e seu casebre no morro de Areia Preta não tem telhas. Anda, como me diz, beliscando pelas praias, aqui e ali, com vida incerta e ganho problemático. Vez por outra encalha na minha janela para prosear. Conta casos do mar, assombros e encantos que são os motivos normais de quem vive balançando nas ondas sagradas do oceano, povoado de mistérios. Perna Santa hoje conta um “caso velho”, como ele classifica. É uma fábula, apólogo, digo, de Esopo e de todos os isopetes clássicos.

Era uma vez um compadre rico que tinha centos de carneiros gordos e bonitos. Precisando viajar, chamou o compadre pobre e entregou o rebanho, recomendando que não vendesse, não desse, não trocasse carneiro algum. Foi-se embora e o compadre pobre ficou com o rebanho, comendo carne de carneiro lardeado de gordura. Toda a gente lhe invejava a sorte. Um dia o Reumatismo quis tomar um carneiro e veio bater à porta do pobre.

- Quero comer um carneiro desses…
- Não vendo, não dou, nem troco…
- Eu sou o Reumatismo! Se não me der um, atacarei!
- Ataque quando quiser…

Não deu o carneiro. O Reumatismo atacou o pobre que se defendeu usando os remédios dos cipós do mato. Dias depois, apareceu na casa do pobre uma mulher.

- Quero comer um carneiro desses…
- Não dou, não vendo, nem troco…
- Eu sou a Febre Amarela! Se não me der um, atacarei!
- Ataque quando quiser…

A Febre Amarela atacou e o pobre defendeu-se bebendo garrafadas amargas. Numa tarde bateu uma velha alta e sisuda. Mesma troca de palavras.

- Eu sou a morte! Se não tiver um carneiro desses, atacarei!…

O pobre ficou com medo. Ofereceu o carneiro e carregou-o aos ombros, acompanhando-a. A Morte andou, andou, até sua casa, toda branquinha, num alto da serra. O pobre entrou, deixou o carneiro a um canto e a morte foi mostrar sua vivenda. Salas e salas cheias de velas acesas, de todos os tamanhos, clareando.

- Que são essas velas?
- São as vidas dos homens!
- Qual é a minha?
- Esta grande aqui!
- E a do meu compadre rico?
- Esse toquinho ali!

O pobre, apiedado, propôs trocar sua vida longa pela vida breve do compadre. A Morte suspirou:

- Não posso fazer a troca! Só quem pode é Deus…

- E a senhora não mata quem quer?
- Não. Eu só mato a quem Deus permite e manda…
- Ah! É assim? Não tem os poderes? Então, tenha paciência, não come o meu carneiro!

E voltou para casa com o carneiro nos ombros…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 17 de janeiro de 1949

Que pena ser só ladrão

João do Rio escreveu uma peça em um ato, Que Pena Ser Só Ladrão, que assisti, há uns vinte anos, no Teatro Republicano, encenada por uma companhia portuguesa, Santanela-Aramante.

Estou citando de memória e os nomes podem ser bem diversos, mas fio estar no rumo certo.

Em Siracusa, perto de New York, um ladrão noturno assaltou um dos maiores armazéns da cidade e carregou muitos e muitos brinquedos. Esses brinquedos eram brinquedos de pobre, os mais baratos, os mais acessíveis de todos. Basta dizer que o roubo orçou aí por uns seis dólares, menos de cento e vinte cruzeiros!…

A polícia pela manhã pôs-se em atividade, mas não descobriu o ladrão.

Os jornais divulgaram o roubo, arrombamento, etc., e os humildes brinquedos foram chegando, um a um, às mãos dos proprietários.

O ladrão distribuíra-os entre as crianças pobres do bairro, as crianças sem brinquedo e que teriam ou terão uma Noite de Natal sem carvão, sem castanhas e sem uma triste bonequinha de matéria plástica.

Os pais dessas crianças, sabendo a origem das ofertas encontradas misteriosamente, foram enviando os brinquedos, arrancados às mãos trêmulas dos filhos, já deslumbrados com os presentes que julgavam mandados por Papai Noel. O armazém recuperou o perdido. O ladrão não pôde ser detido. Saberá, pelos jornais e rádios, que o seu ato foi inútil.

As crianças continuaram sem brinquedos. E a polícia procura o doador que arrombou o armazém para ser um Papai Noel sem romeira de veludo escarlate, sem gorro de arminho, sem barba de algodão.

Certo é que esse ladrão de Siracusa é um ladrão diverso. Não vou pensar no raciocínio que ele fez olhando as toneladas de brinquedos e os milhares de crianças sem eles. E calculando quanto custaria uma ceia de Natal nos hotéis de New York, saboreada pelos filantrópicos de fotografias nas revistas e das senhoras beneméritas com os dedos encaroçados de brilhantes, com agasalhos de zebelinha e de marta prateada, quase o custo de um arranha-céu.

Eu, para que negar? Acredito no Direito Natural. Acredito numa porção de sentimentos fora da moda e da percepção moderna.

Que pena só ser ladrão esse arrombador noturno dum armazém em Siracusa!

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 19 de fevereiro de 1949

O conforto é estímulo intelectual ?

Durante uns dias faltou a luz elétrica em Madrid e foi motivo para um interessante artigo na “A.B.C.” (28-XI-1948). Passa-se em revista a produção intelectual antes e depois da luz elétrica e não há vantagem para esta. Certamente não há também o fator tempo apreciável. A iluminação elétrica é de 1841 e o homem trabalha há doze mil anos…

O que foi feito, nesses últimos cinco mil anos, é constante patrimônio insuperável para o futuro. Não é possível escrever, esculpir-se, pintar-se melhor do que foi feito. Nem mesmo próximo ao nível podemos apontar os nossos orgulhosos gênios de 1841 hoje como os criadores do passado. Em nenhum domínio cultural houve modificação sensível dentro das relações estabelecidas pelos antigos.

Pode haver frase mais ou menos irônica, mas a verificação é acabrunhada. Os poetas do primeiro século não foram superados. Nem os historiadores, como Tácito, Tito Lívio, Xenofonte, Tucidides. Negará quem desconhecer os citados. Mas a estória é outra. Perguntaria, por minha vez, se o conforto material é um estímulo. Cercando-se das comodidades modernas e lógicas, garantir-se-á uma melhoria na produção mental?

A lista dos gênios esfomeados, cortados de frio, sem pouso, escrevendo na prisão, compondo debaixo de ameaças febris, errantes incompreendidos, perseguidos, é muitíssimo maior que a dos homens que tiveram uma atmosfera de compreensão e de estímulo.

Os grandes livros, os livros decisivos, do século XVII para os nossos dias, foram publicados com dificuldades enormes, recusados pelos editores inteligentes, ridicularizados pela crítica oficial, negados pelas glórias do tempo. Uns noventa por cento dos gênios indiscutíveis foram vítimas dos seus contemporâneos. Morreram de fome, suicidaram-se, foram exilados, vaiados, vilipendiados, cobertos pela miséria absoluta da ignorância vitoriosa e do favoritismo triunfante. Não é preciso citar nomes.

Por um Pope, um Byron, um Tennyson, um Ruskin, respondem as multidões superiores dos Sócrates, Platão, Shakespeare, Cervantes, Camões, Pascal, Newton, Galileu, Aristófanes, Demóstenes, centos, centos… E os músicos? Beethoven, Schumann, Schubert, Chopin, não respondem pela medíocre (??) de Brahms, Wagner, Listz ou Debussy?

Será que o gênio, como canários de raça, só canta com fome?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 21 de fevereiro de 1949

Valorizemos a arte tradicional e popular

Todos esses objetos de barro tosco que vemos nas feiras e nos mercados públicos da cidade são documentos do gosto coletivo e guardam, no tempo, os elementos típicos de cada fisionomia nacional. Não devemos julgá-los inferiores nem grosseiros, mas diversos de outras artes e de outros gostos. As formas desses vasos, aguidares, jarras, copos, tigelas, conchas, potes, na escala dos tamanhos, são denúncias interessantíssimas, materiais preciosos para um estudo, vagaroso e nobre, nos domínios da etnografia.

Gostaria de ter um jarrão do Egito? Desejava possuir verdadeiramente um jarrão com a legitimidade das linhas egípcias, conservando a estrutura milenar? Quer mesmo?

E a que época esse jarrão deve pertencer pelo estilo e recordar pela forma? O Egito clássico? Dos tempos em que as pirâmides foram erguidas?

Pois então vá a feira do Alecrim ou das Rocas e compre uma jarra, uma jarra entre dezenas de jarra que lá estão. A nossa jarra popular, banal, modesta, comum, plebéia, jarra que nunca mereceu elogios, versos ou louvores, é autenticamente uma constante etnográfica do modelo egípcio, conservando, ali no Alecrim ou no terreiro das Rocas, as linhas fiéis a uns cinco mil anos!

Se duvidar deselegantemente do que lhe afirmo abra a Enciclopédia Britânica, na secção egípcia, e encontrará a silhueta inconfundível da nossa jarra, idêntica, irmã, gêmea pura, como vivendo e sendo usual há cinqüenta séculos…

Não é preciso mais nada para documentar como o povo sabe conservar, conservar fabricando, manipulando, distribuindo, vivendo, os objetos de seu uso milenar.

Nem um poeta, um historiador, um guerreiro, faraó imponente recordamos facilmente dessa época tão recuada.

Nem mesmo é possível indicar-se um deus egípcio porque eles tiveram vida e época para o culto. Nasceram, dominaram e morreram. Não podemos dizer se Isís ou Osíris, Tot ou Anúbis eram populares há cinco mil anos.

A civilização era bem diversa da que conhecemos. A Grécia vivia a fase mítica. A antiguidade clássica envolvia-se no confuso nevoeiro dos mitos. A História, Luz de Verdade, tateia, indecisa, estendendo a mão verificadora ao encontro da Arqueologia. Um objeto deste tempo, com o mesmo uso, cor e forma, tamanho e aspecto, atravessou os cinqüenta séculos e está esperando tua visita, leitor importante, numa feira semanal no Nordeste do Brasil…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 29 de dezembro de 1948

Ingleses no Brasil

O magnífico estudo de Gilberto Freyre, Ingleses no Brasil (Livraria José Olympio Editora), fixa nas linhas gerais o que se diria a história do trabalho inglês no Brasil. Lidou os dois horizontes. Não houve outra influência mais visível no povo brasileiro, exceto naturalmente o colonizador português, que o “mister” vermelho, apressado, estirando os trilhos das estradas de ferro, comandando os primeiros paquetes regulares que o Tratado de Fevereiro de 1810 regulara, vendendo os tecidos fortes, o chá da Índia, o “bitter”, habituando-nos com o álcool matinal, quebra-jejum, mata-bicho, primeira bicada. Certo, o Folk Lore brasileiro conservou a figura do inglês negociante, marinheiro, construtor de ferrovias, na sua poesia anônima e poderosa de vitalidade. As “estórias” mais antigas lembram o inglês no mar. Não traficando, mas combatendo. Não havia a idéia do navio do mar que não fosse armado de canhões, roncando batalha.

Eu entre de mar a dentro
Prá brigá com os inguilês…
Comi bala envenenada
Cuspi fogo sete mês…

Depois dos tratados com D. João Nosso Senhor no Rio de Janeiro, com o Juiz Conservador, o cônsul, as concessões, o inguilês aparece sem as balas envenenadas, mas batendo as “sulipas” das estradas de ferro. É, para o cantor, a característica, o elemento essencial que o impressionou. Respondendo Manuel Serrador a Josué Romano, nas preliminares de um desafio, cantou esse versinho típico, que reuni no Vaqueiros e Cantadores (Livraria Globo Editora, 162):

E eu andava atrás de ti,
Que só guaxinim por cana,
Ou raposa por galinha,
Ou macaco por banana,
Inglês por linha de ferro
Ou preá por gitirana…

Num famoso debate de Preto Limão com Bernardo Nogueira (Vaqueiros e Cantadores, 179) na menção de uma prensa inglesa, tornado processo de suplício para o adversário na cantoria:

Eu já tenho um moinho de quebrar osso,
Uma prensa inguilesa preparada, etc.
Subtendendo-se a excelência da máquina.

Nós temos nossa fauna toda batizada em português, e nas línguas indígenas (especialmente tupi e cariri) e negras, bantos e menos sudaneses. Há um animal com nome dado pelo inglês construtor de estradas de ferro. É o jumento chamar-se popularmente jegue.

Muito raro é essa influência no domínio zoológico. Nome de animal é sempre uma propriedade nacional. O inglês diz “Ass” referindo-se ao jumento. Uma alavanca, espeto, elevador de carro, etc., chamam “Jack”, isto é, instrumento de trabalho. Humoristicamente denominaram o jumento de “Jack-Ass”, jegue-esse, e a crisma passou docemente ao jegue, com todos os efeitos da sinonímia.

O ensaio de Gilberto Freyre, além da lição clara e ágil de sempre, sugeriu-me esse pormenor que é convergência da tese justa por ele exposta e defendida.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 15 de janeiro de 1949

Aprendendo a ver

Aprendemos a falar, mas vemos espontaneamente. Ensinam a linguagem, colocar os pronomes, evitar solecismos, musicalizar a dicção pelo equilíbrio prosodial. Mas ninguém ensina a ver, ver como deve ser vista uma paisagem, um objeto de arte, um cortejo, uma profissão, uma mostra artística. Certamente aqui não está sendo citada documentação erudita. Não há necessidade de aula para cada motivo visual.

O que carecemos é uma educação sumária, mas precisa, dirigindo o olhar para o essencial, o expressivo, o real nos temas examinados visualmente. Ver é possivelmente o processo inicial de sabedoria. Há quem viva cem anos e não saiba ver senão num determinado ângulo, consciente ou inconscientemente. Os sexuais só podem ver uma mulher despindo-a mentalmente. Os chamados homens-práticos olham pelo rendimento material possível. Numa paisagem florestal deduzem o preço da lenha ou da madeira aproveitável em tábuas, pranchas e vigas. Num rio só podem enxergar a força motriz ou pescado. A visão de um conjunto de fábricas é para muitos a idéia única do progresso humano.

Há quem diga: – Que vale Leonardo da Vinci comparado com Henry Ford? Um pintor mataria o atrevido autor de tal frase.  A verdade é que Da Vinci e Ford são valores que não se excluem, mas não haverá possibilidade de vitória de um sobre outro. Os benefícios espirituais espalhados pela obra do grande Leonardo são incalculáveis e imprevisíveis. O mesmo, noutro plano, dir-se-á do primeiro Ford. Pedagogicamente o maior inimigo da educação visual é o processo declamatório escolar, a moléstia, a doença, o vírus da memorialização forçada e total. Estudar História ou Geografia decorando a página do livro, palavra por palavra, servil, humilde, apagadamente, é dos crimes mais violentos e brutos contra uma inteligência infantil. Nada perdoará um professor ou uma professora displicente nesse ponto de recepção auditiva.

Decorando, a criança coloca a visão fixada pelo livro sobre sua inteligência infantil. Gruda o cartaz cobrindo o desenho de sua percepção individual.

Atrasa, evidentemente, a maneira pessoal de ver porque cria a falsa sensação. Para ensinar a ver começar-se-á por ensinar a conversar e descrever. O vocabulário pronto é a caixa de tintas ou a placa sensível da Kodak para impressionar a inteligência com a visão exterior da beleza.

Falta explicar a Beleza. Mas essa pergunta até os cegos respondem.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de janeiro de 1949

O relógio parado em sete horas

Papini tem um conto em que evoca o relógio parado em sete horas. Todos os relógios da vizinhança vivem e anunciam a função na sonoridade das horas tirlintadas. Somente ele marca a mesma hora, o tempo imóvel, para sempre no sono dos dois ponteiros na brancura do quadrante.

Mas há um momento em que a hora do relógio morto coincide com a hora de todos os mostradores vivos e palpitantes. Cada doze horas, durante um instante, todos os relógios marcam a mesma hora, numa fugidia ilusão de solidariedade.

Assim nós, declamava Papini, marcamos sempre a hora de nossa sensibilidade pessoal, hora que construímos com os livros, a mentalidade, a percepção, o instinto.

Ao redor de nós a vida passa, diante, para frente, para o alto, turbilhante, impiedosa, irresistível.

De raro em raro sentimos a consciência das horas miraculosas. Sentimos a incomparável unidade. São frações infinitesimais, relâmpagos, clarões tão rápidos que duvidamos de sua presença.

Se formos deduzir pela escala individual, a nossa hora é a única das horas vivas. Todos os demais relógios do mundo estão parados e mortos.

Para os grandes contemplativos essa fusão é o êxtase. Para os místicos é o enebriamento espiritual.

Certos de que o mundo é uma representação ilusória do nosso sentido interior, vivendo pelo que sentimos e não pela vida-em-si, indicamos os mortos ponteiros dos nossos relógios como as supremas diretivas mentais e reais para todos e para tudo.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de janeiro de 1949

Lesmas com alhos

Karl May, daqueles romances de aventuras, conta que numa aldeia no Turquestão, ofereceram ao herói o prato mais gostoso da região. Gabara muito o petisco, lamentando a existência de criaturas humanas que desconheciam a suprema delícia do pitéu. Uma das excelências reais do povo bravo e bom é ter tido a felicidade de degustar, vez por outra, o quitute, digno dos deuses e dos santos, glória da culinária asiática, tradição surpreendente de obras primas no popular. A gente em torno ia ficando com a boca cheia d’água na simples evocação do maravilhoso cibo. O herói de Karl May prelibava a iguaria única.

Finalmente o dia chegou. O prato célebre, de espantoso prestígio alimentar, era simplesmente um guisado de lesmas com alhos. Lesmas com alhos! Ante o horror do herói olhando aquela massa repugnante que o nauseava, os circunstantes romperam em protestos indignados. Como era que ele, um estrangeiro, um viajante, um explorador desdenhava comer o manjar divino do Turquestão? Pois era possível algum homem, alguma mulher, alguma criança neste mundo sem gostar de lesmas com alhos? Inacreditável! Impossível!

Não vamos discutir a possível ficção do escritor de Minich. O que de real acontece é que somos desesperadamente surpreendidos entre o nosso gosto estético e as predileções alheias. Raramente, muito raramente, compreendemos as razões íntimas, subjetivas, psicologicamente complexas que constituem o processo mental da assimilação e formação do gosto, da aceitação, do solidarismo em sabor, olfato, audição, visão.

O índice trágico e cômico é a mentalidade hermética e quadradamente fixada em pontos essenciais e pessoais de percepção. Devemos gostar porque alguém gosta. É o critério dos caçadores valentes do Turquestão. Não podiam compreender como alguém desdenhasse comer das lesmas com alhos pela razão precípua do prato ser tradicionalmente o mais saboroso da região. A fórmula sensível e lógica é que ninguém é dado proibir que alguém goste de lesmas com alhos. E a recíproca indispensável:- é preciso admitir a possibilidade de alguém não gostar de alhos com lesmas.

Gostos não se discutem.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 20 de dezembro de 1948

O outro petróleo

Em matéria de psicologia social, onde menos se aprende é no livro. O curso essencial é dado pelo povo.

Estudar o povo na observação de hábitos normais é ainda a melhor fórmula de aprendizado. E outra exigência é ter-se a coragem de recusar as conclusões dos sábios, dos professores de Universidades, dos gênios por aclamação temporária, dos reformadores por auto-nomeação inconsciente. Recusar a roupa feita em Harvard, em Columbia University, em Paris, Londres, Roma, Europa, França e Bahia desde que não se ajuste ao corpo em estudo.

Não estudamos certos aspectos da cultura normal do Homem Brasileiro porque ainda não apareceu um nome atravessado para descobrir o mel de pau engarrafado. É preciso que um desses olhos de xexéu, como diz o Ascenso Ferreira, mostre de uma das janelas da nossa casa a paisagem natural que nunca vimos.

O razoável é que os nossos estudiosos de etnografia e de sociologia libertassem o subconsciente dessa superstição da canga estrangeira na ilusão do melhor caminho escolhido pelo vaqueiro de fala atrapalhada.

Ninguém discute a dívida com exploradores naturalistas e professores de outros países, revelando tantos aspectos do Brasil. Ninguém endoideceu para declarar guerra às universidades norte-americanas e européias sob pretextos estranhos de uma autonomia suicida. Ninguém vai chamar quinta-coluna a quem citar um russo como aquele Prefeito que mudou o nome de Dante Alighieri de uma praça porque o poeta era patrício de Mussolini, esquecido de haver um espaço de oito séculos entre os dois.

O que se me afigura indispensável é a valorização dos métodos brasileiros de pesquisa e de classificação. Pôr os resultados brasileiros ao lado das conseqüências estrangeiras é uma necessidade normal. Não estudar ou não fazer porque ainda não foi feito no Iraque ou na Bessarabia é um depoimento de rebanhismo digno de um carreiro de formigas ou duma piracema de peixes-voadores.

Esse outro petróleo podia verdadeiramente merecer as mesmas atenções estudantis, letreiros, cartazes e manchetes alarmadoras da consciência nacional em defesa de um bem nacional.

Creio que seria possível na escala dos milagres. O que está faltando ao estudioso brasileiro é a valorização do seu trabalho.

Nada mais.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 18 de dezembro de 1948

Nosso amigo, o livro

Contam ter alguém, na presença de Dom Francisco de Quevedo, dito:- Quem me dera uns bons livros para passatempo!

E o formidável Quevedo respondeu, imediato:

- Quem me dera tempo para passar livros!

O mestre da sátira de Espanha, o mestre humorista, doutor em ciência vária, significava a valorização do tempo e a indispensabilidade do livro.

Ainda é o livro o elemento menos encontrado nas residências. Dos nossos leilões apregoados, raramente aparece uma estante com livros. Nas casas bonitas e novas, com garagem, rádio e geladeira, não há um cantinho para livros. Pode haver um hemiciclo para o Bar.

Não temos o hábito da leitura. Esse “não temos” aplicar-se-á a uma média geral. Milhares e milhares de pessoas lêem, mas terão a maioria, de alfabetizados, insensíveis ao amigo maravilhoso.

Fácil é saber, percorrendo as nossas livrarias, numa cidade que orça os seus cem mil habitantes, tantos volumes são vendidos, de literatura, história, ciência, mensalmente. É um número ridículo.

Há tempos, numa festa familiar, dizia um desses comerciantes vitoriosos e que Parnamirim ajudou a ficar importante.

- Passei um dia horroroso sem ter o que fazer. Não pude sair, ninguém me procurou. Fiquei sem uma coisa para distrair-me.

Na casa do homem rico, deste homem rico, não havia um livro e ele estava no meio da vida, rico, feliz, influente, sem ter atinado com a necessidade do livro.

Para criar o hábito da leitura, as bibliotecas nos Estados Unidos e na Inglaterra, Escandinávia, Bélgica, Holanda têm uma grande seção de empréstimo. Leva-se o livro para ler em casa, descansadamente. Depois, pouco a pouco, aparece o vício, o melhor dos vícios do mundo, da companhia de um livro, fiel e bem educado amigo que não diz coisas desagradáveis pensando ser espirituoso, não risca os móveis com o canivete, não limpa os pés nas cadeiras de jacarandá e não inicia uma visita dizendo, numa prévia e inconsciente denúncia, à indolência, preguiça e inutilidade do visitado:- Isto é que é vida! Como quem diz, vida gostosa, irresponsável, sem o esforço, o trabalho, o suor, a dignidade da minha…

Camilo Castelo Branco falava que os livros eram velhos generosos. De minha parte elogio também a sua paciência.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 15 de dezembro de 1948

Filhos de ricos e filhos de pobres

Não entendo de finanças. Eça de Queiroz afirmava saber tão pouco de matemática que acabaria sendo Ministro das Finanças. Não entendo de finanças, repito, nem creio que alguém as entenda na acepção brasileira em que tem sido utilizada.

Estamos em plena curva de produção. Estamos perdendo mercados exteriores. Estamos assistindo a uma urbanização criminosa, multiplicando-se os centros e citadinos em detrimento absoluto das áreas de pecuária e de agricultura. Estamos vendo o absurdo de uma centralização anti-humana e anti-lógica. Estamos presenciando a atração da Cidade matar a iniciativa do campo. Vimos, com o financiamento agropecuário, um verdadeiro teste sobre a honestidade do pequeno produtor. Vamos fechar o orçamento com déficits sérios. A vida normal do Brasil é relativamente muito mais cara do que na Inglaterra, na França e na Espanha. O transporte é caríssimo no Brasil.

A falsificação, o cinismo do falso produtor, a baixa diária na chamada “moral comum” verifica-se facilmente. Sei muito bem que são fenômenos sociais e inexplicáveis por um elemento isolado e sendo acumulações de anos e anos de crises erradas, enfim do barco entregue aos papagaios que falam e não aos castores que fabricam. Sendo a vida cara, acima do poder aquisitivo da nossa moeda, o remédio do aumento dos vencimentos é um remédio que vai piorar o doente. O custo de vida vai subir 35 % mais do que qualquer aumento. Prestem atenção ao futuro e desmintam.

Aumento do funcionalismo federal, aos deputados, aos oficiais das forças armadas, e justiça. E o funcionalismo estadual, nos Estados sem possibilidades orçamentárias atendíveis? Os filhos dos papais ricos vão continuar a viver no mesmo pacto em que vivem os filhos dos papais pobres. Apenas poderão pagar pelo triplo os mesmos objetos de vestir, de comer, de andar, etc. O outro, com a mesma perspectiva jurídica (de mentira) de direitos iguais, jamais poderá competir. Esse estado determina, forçosa e logicamente, uma visão melancólica da vida, um desestímulo de trabalho, de ânimo, de esforço.

O desequilíbrio, a distância dos vencimentos entre seres de funções idênticas, mata qualquer entusiasmo. Era melhor pensar mais lentamente. Sabemos que o Brasil é um paraíso. Mas a verdade é que o paraíso divide-se em secções, áreas, compartimentos.

Nós, funcionários estaduais de Estados Pobres, ficamos na pontinha de trás, perto do fim, num paraíso de segunda classe.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 10 de dezembro de 1948

O Folk Lore do Mar

Quem demora numa praia simples e rústica como é Areia Preta e procura conversar com os pescadores, as mulheres e os filhos, futuros vencedores das ondas e comida de cação, queimados, inquietos, desconfiados, terá resultados surpreendentes no plano da informação folclórica.

Nunca encontrei nos mestres do Folk Lore europeu alguma documentação sobre a tradição do mar na crendice coletiva. Todos citam os seres encantados que vivem no Mar, sereias, homens morenos, trouxas de roupa, procissões de afogados na noite de sexta-feira da Paixão como Mistral viu também no “Mireio”, cantos, luzes, navios iluminados e transparentes, jangadas velozes que desaparecem como fumaça, peixes estranhos, o cação espelho, o pintadinho, polvos gigantescos. Quando digo o Folk Lore do mar, refiro-me ao Mar considerado isoladamente, o próprio elemento sem seus habitantes assombrosos. Seria idêntico ao Okeanus, ao Velho do Mar (“Aliôs Géron”), casado com Tetis, vivendo no limite ocidental da terra e sem contato com os outros deuses do olimpo grego e do panteon romano.

Os pescadores do mar alto, com terra assentada, contam maravilhas do Mar. É um ser imperioso e cheio de vontades, de manias e de exigências. Sabem o que ele não gosta de ver ou de ouvir. Há regras, leis, um direito consuetudinário secular, que vem de memória em memória nas retentativas dos pescadores como um CORPUS JURIS de legítima defesa como a imensidade deliberante e volitiva. Há exigências de silêncio em certas ocasiões. Não se canta depois que o sol se põe. Não se grita senão havendo claridade. Não se insulta o Mar batendo-lhe com o calcanhar, o joelho ou o cotovelo. O Mar ama as cores vermelha, branca e azul. As coisas sinistras e confusas que bóiam nas horas de treva e de lusco-fusco têm sempre essas três cores.

Há índices vagos de que o Mar continua pagão e não tem sobre seu dorso nome de coisa santa como há na superfície da terra. Quem estiver dentro do Mar não diga em voz alta:- Jesus, Maria, José! O Mar agitar-se-á imediatamente, revoltado… É cheio de pudor como não o era Poseidon ou Netuno. Praia em que as mulheres tomam banho não há peixe. O Mar não deixa. A transformação das praias em situações elegantes, para exibição de “maillots”, é a sentença de morte para as peixadas tradicionais. As piracemas, os bandos, os cardumes emigram para outras zonas procurando outros recantos mais tranqüilos, longe das formas perturbadoras das sereias com duas pernas.

O Mar é Sagrado e Encantado. E quando desencantar-se-á?

No Fim do Mundo, respondeu, quando não houver mais pecado…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 05 de dezembro de 1948