Pedro Perna Santa tem mais de quarenta anos de pescador. Já possui bisnetos e seu casebre no morro de Areia Preta não tem telhas. Anda, como me diz, beliscando pelas praias, aqui e ali, com vida incerta e ganho problemático. Vez por outra encalha na minha janela para prosear. Conta casos do mar, assombros e encantos que são os motivos normais de quem vive balançando nas ondas sagradas do oceano, povoado de mistérios. Perna Santa hoje conta um “caso velho”, como ele classifica. É uma fábula, apólogo, digo, de Esopo e de todos os isopetes clássicos.
Era uma vez um compadre rico que tinha centos de carneiros gordos e bonitos. Precisando viajar, chamou o compadre pobre e entregou o rebanho, recomendando que não vendesse, não desse, não trocasse carneiro algum. Foi-se embora e o compadre pobre ficou com o rebanho, comendo carne de carneiro lardeado de gordura. Toda a gente lhe invejava a sorte. Um dia o Reumatismo quis tomar um carneiro e veio bater à porta do pobre.
- Quero comer um carneiro desses…
- Não vendo, não dou, nem troco…
- Eu sou o Reumatismo! Se não me der um, atacarei!
- Ataque quando quiser…
Não deu o carneiro. O Reumatismo atacou o pobre que se defendeu usando os remédios dos cipós do mato. Dias depois, apareceu na casa do pobre uma mulher.
- Quero comer um carneiro desses…
- Não dou, não vendo, nem troco…
- Eu sou a Febre Amarela! Se não me der um, atacarei!
- Ataque quando quiser…
A Febre Amarela atacou e o pobre defendeu-se bebendo garrafadas amargas. Numa tarde bateu uma velha alta e sisuda. Mesma troca de palavras.
- Eu sou a morte! Se não tiver um carneiro desses, atacarei!…
O pobre ficou com medo. Ofereceu o carneiro e carregou-o aos ombros, acompanhando-a. A Morte andou, andou, até sua casa, toda branquinha, num alto da serra. O pobre entrou, deixou o carneiro a um canto e a morte foi mostrar sua vivenda. Salas e salas cheias de velas acesas, de todos os tamanhos, clareando.
- Que são essas velas?
- São as vidas dos homens!
- Qual é a minha?
- Esta grande aqui!
- E a do meu compadre rico?
- Esse toquinho ali!
O pobre, apiedado, propôs trocar sua vida longa pela vida breve do compadre. A Morte suspirou:
- Não posso fazer a troca! Só quem pode é Deus…
- E a senhora não mata quem quer?
- Não. Eu só mato a quem Deus permite e manda…
- Ah! É assim? Não tem os poderes? Então, tenha paciência, não come o meu carneiro!
E voltou para casa com o carneiro nos ombros…
Diário de Natal, 17 de janeiro de 1949